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MACEIÓ
O alagoano, generoso que é, seria capaz de arrancar um
pedaço da Praia de Pajuçara e entregá-lo a um paulista que,
deslumbrado, ficara encantado com o azul caribenho do mar em suas últimas
férias no Nordeste. Uma velha lenda, contada
de pai para filho há mais de 300 anos - e também pelos professores de
História - e que é tão simples quanto reveladora. Diz que, ao
contrário de muitas cidades brasileiras, fundadas pela força dos
invasores, fossem eles padres ou nave-gadores, Maceió nasceu de uma
empresa fabricante de açúcar, um engenho, no final do século 17.
Ah, então a cidade nasceu das mãos de um usineiro?
Isso mesmo. Bem, pelo menos assim fica mais fácil entender a ordem de
grandeza das coisas, quem manda em quem naquelas plagas e para onde o
vento sopra - carregando um aroma em que é impossível dissociar a
maresia e a política, os dois ingredientes principais da cultura local.
Mentira. Nada consegue se confundir com as praias de Maceió e as do
litoral alagoano, as mais famosas do Nordeste. Tão famosas e tão lindas
que foram disputadas durante 200 anos entre índios, os inquilinos
originais, portugueses, franceses, holandeses.
Você provavelmente nunca viu no Brasil uma
praia como a do Francês, a 15 quilômetros do centro de Maceió, ou a da
Barra de São Miguel, a 33 quilômetros da cidade. E também nunca deve
ter visto um lugar tão bonito como a Ponta do Gunga - uma ponta de areia
que parece ter sido desenhada em computador de tão perfeitamente
paradisíaca. Em todas as praias a bebida mais comum, além da
água-de-coco, é uma batida de abacaxi dentro do próprio, por 4 reais.
Dá para embebedar "uns quatro, um rebanho" - segundo a
expressão local para designar uma quantidade infindável. Um espetinho de
camarão sai por uma baba, 1 real, o mesmo preço do caldinho de feijão
na orla.
Passeio para tu-rista ver? Vá ao Pontal da Barra, onde
no final da tarde chegam as escunas dos passeios na Lagoa de Mundaú e as
rendeiras ficam sentadas nas calçadas, na lida diária, fazendo a trama.
Tem linho, linha, bordado e até camiseta feita em Santa Catarina com silk
prensado em São Paulo e depois "exportada" para Alagoas. Eles
entregam o produto em sacolinhas do Wal-Mart. Um luxo. Da terra, mesmo,
só o vendedor - e olhe lá, porque muitas vezes os rapazes são do
interior de Pernambuco.
O melhor em Maceió é que depois de um dia inteiro na
praia ninguém quer ficar largado na cama, abraçado ao ar-condicionado
para ver se passa o calorão, nem esparramado na banheira do hotel
esperando a pele enrugar. Isso explica a agitação na cidade à noite,
uma das mais conhecidas do Nordeste pela oferta de diversões. Os
quiosques da praia ficam cheios de gente, principalmente nos bares onde
há sanfoneiros e bate-pé. O calçadão tem ambiente superfamília, de
fazer inveja àquelas criadas pelo dramaturgo pernambucano Nelson
Rodrigues. Não se furte a comer uma tapioca nas banquinhas improvisadas
no asfalto ou a tomar um caldinho de feijão, com salsinha e pimenta,
daquela que matou o padre.
Mas o chamado "estado de guerra", na própria
acepção da palavra, acontece nos bares localizados atrás do hotel
Meliá - é assim que todos indicarão para você, quando for a Maceió.
Trata-se de um quadrilátero que reúne cerca de 25 bares e casas noturnas
onde o bicho pega de mão gorda e peluda. Alguns nomes: Divina Gula, que
deve ter sido criado por um mineiro que errou o caminho de casa, e cujo
atendimento é feito por uma inexplicável maioria de garçons gaúchos;
Bye Bar Brasil, onde bebem os profissionais, roqueiros e a moçada em
geral.
Durante o dia, principalmente depois de ficar várias
horas na praia, o irresistível é passar em frente a uma das muitas
sorveterias que vendem o gelado por quilo - com acessórios melhores que o
próprio sorvete - e não entrar. É ali que se namora, que se conspira,
enfim, que se engorda. Nos dias de jogo de futebol são instaladas tevês
29 polegadas por todos os cantos, nos bares, restaurantes, sorveterias e
quiosques, e a galera pára tudo o que está fazendo para se dedicar à
telinha.
Televisão também é a única saída em alguns
períodos do ano, principalmente entre os meses de junho e agosto, quando
a torneira do céu é aberta e a chuva deságua dias seguidos em Maceió.
Só há uma solução. Faça uma promessa para o padre Cícero - cuja
imagem está fincada na Praia de Ponta Verde - e beije o pé da estátua
brancona. Nove em cada dez vezes a tática mostrou-se eficaz e, no dia
seguinte, o sol raiou implacável, fazendo com que todos corressem em
direção ao mar azul-Caribe. Vale uma aposta.
Nos dias de sol, pague 10 reais e embarque no passeio
mais imperdível de Maceió. As jangadas cruzam o mar 2 quilômetros
Oceano Atlântico adentro, levando os turistas para várias piscinas
naturais, formadas pelos corais da orla. Alguns dos barqueiros oferecem
frutas da região para adocicar o passeio.
República dos Palmares, dos Marajás (ou dos
Usineiros, é a mesma coisa), do Brasil, república disso e república
daquilo. Quando for a Maceió não precisa se preocupar com tudo o que
acontece nesse mundo paralelo da política e da cana-de-açúcar. E por um
motivo muito simples. Você pertence à melhor e mais respeitada
república existente em Maceió: a República dos Turistas.
A praia é o limite, portanto, entregue-se aos encantos
de Pajuçara, Ponta Verde ou Jatiúca, as melhores da cidade de Maceió. Vale a pena passar um
dia inteiro lagarteando ao sol. Na hora do almoço, aproveite a
proximidade de um dos quiosques à beira-mar para comer. Alguns deles,
como o Fellini, em Ponta Verde, têm ótimos petiscos à base de frutos do
mar. E, depois, volte para o sol. No fim da tarde, após um banho
refrescante, dê um passeio na feirinha de artesanato de Pajuçara. Uma
das peças mais criativas para quem quiser levar uma lembrancinha são as
marionetes típicas nordestinas. À noite, jante no restaurante do hotel
Jatiúca e depois caminhe pela praia - uma coisa que todos os locais
fazem, sem medo.
Acorde bem cedo e siga para a Praia do Francês - uma
ótima opção para passar o dia fora da parte urbana da cidade. Se
estiver sem carro, não há problemas. Os taxistas cobram 40 reais pelo
passeio, que dura cerca de quatro horas. Mas o ideal é marcar com o motorista
pelo menos com um dia de antecedência. No Francês é possível passear de banana boat, ultraleve e
minimotocas que servem inclusive aos adultos. Tome uma deliciosa batida de
abacaxi na própria fruta (4 reais). Na hora do almoço, experimente o
restaurante Chez Patrick, muito bem localizado. Um prato farto de salada
custa 5 reais e, para acompanhá-lo, peça um peixe no palito (6,50
reais). À noite, vá conhecer a boate D´Arcos.
Já que o dia anterior foi puxado, descanse um pouco
mais hoje. Pode dormir até as 9h. Para variar tome o seu café da manhã
no hotel Ponta Verde. Além de uma mesa variada, há uma moça vestida de
baiana (que estranho, não estamos em Alagoas?) fazendo tapioca de queijo
e de coco, que dá o clima nordestino à refeição. No caminho da praia,
dê uma caminhada de Pajuçara a Jatiúca. Em frente ao hotel, há muita
agitação. Almoce no restaurante Canto da Boca. Peça uma moqueca de
camarão (12 reais), que vem bem servida. Ainda dá tempo de
voltar para a praia, aproveitar um pouco mais um dos pontos fortes
de Maceió, o fim de tarde. Nesse horário, o ideal é que você esteja em frente das quadras de basquete de areia (isso
mesmo, joga-se obviamente sem pingar a bola no chão, só passando de mão
em mão). É lugar de gente bonita e jovem. Depois do jantar, passeie pela Praia de Ponta Verde e aproveite
para comer uma tapioca em uma das barraquinhas da orla.
Um dia antes, acerte com os barqueiros um passeio de
escuna tendo como ponto de partida a ponta da Barra de São Miguel, que
custa 10 reais por pessoa. Se preferir que sejam incluídas frutas da
região serão acrescidos 2 reais ao preço. Durante quatro horas, a partir do
horário que você marcar, o barco passa por várias praias e ilhas até chegar à Ponta do Gunga -
conhecida por ter sido freqüentada pelos marajás "colloridos".
Aproveite para almoçar, quando voltar do passeio de escuna, no
restaurante La Tablita, que é muito conhecido na região pela deliciosa paella que
serve.
À noite, de volta à cidade, jante na praça de alimentação do Shopping Iguatemi.
Depois, tente o bufê de sorvetes do Sorvetton, na orla de Ponta Verde.
Como ninguém é de ferro e você está passeando, tome
praia. Afinal, você chegou até aqui para isso, não é? Na parte da
manhã, fique mesmo nas praias da cidade - Pajuçara pode ser uma boa
escolha. Almoce no Gstaad, o restaurante preferido do falecido PC Farias e
da turma collorida. Come-se muito bem no restaurante,
que segue a linha francesa. Peça uma Lagosta ao Termidor, fartamente
servida com risoto (26 reais). A única desvantagem é a exigência de
roupa esporte ou social, não permitindo a entrada de pessoas com bermuda. À noite, depois de jantar
no Divina Gula um tutu de feijão, vá ao bate-coxa do
quiosque Lampião, na Praia de Ponta Verde. É muito divertido ver alguns
rapazes jogando para cima moçoilas de saia, como se fossem pacotes de
farinha de trigo.
Às 9 horas, um dos passeios mais interessantes da cidade,
que pode ser feito em escuna ou mesmo em lanchas pequenas, deixa o Pontal da Barra.
São visitadas as nove ilhas da Lagoa de Mundaú até a Praia Verde - uma
estreita faixa de areia que divide o mar da lagoa -, onde o barco
permanece por algumas horas para os turistas darem uns mergulhos. Quatro horas depois, você está de
volta ao Pontal da Barra. Almoce em um restaurante especializado em frutos do mar, o Bar das Ostras, que fica mais
exatamente no bairro do Trapiche. No final da tarde,
passeie pelo comércio de renda e linho, o mais famoso da região.
Sim, é verdade. O que é bom chega ao fim. E, por
isso, nesse último dia prepare-se para o melhor e mais emocionante
programa que você poderia fazer em Maceió: liberte-se de toda a tensão
acumulada durante essa semana e entregue-se, mais uma vez, ao tentador azul do mar alagoano.
A melhor época para visitar Maceió é entre setembro
e dezembro, quando os preços ainda estão baixos, o clima, agradável, e
não há excesso de gente. Portanto, ótimo para descansar. De dezembro a
março é ideal para quem gosta de badalação.
No bairro de Pontal da Barra, um vilarejo de pescadores
com ótimos bares à beira da Lagoa de Mundaú, há rendeiras que fazem
maravilhas com as mãos: passadeiras saem por 10 reais; colchas de casal
coloridas, 13 reais; e jogo de cama de casal, em linho, 40 reais.
De final de junho a começo de agosto, tire o mofo do
seu guarda-chuva. O tempo em Maceió é capaz de tirar qualquer um do
sério, pois sol e chuva alternam-se a cada cinco minutos. Os outros nove
meses do ano têm temperaturas que variam de 28 a 38 graus.
Maceió é uma cidade fácil. Primeiro, fácil de
gostar, porque é bonita e doce, como uma dessas pessoas que se acha
uma simpatia e se fica amigo logo. Segundo, é fácil de entender,
porque é aberta e clara, alvejada pelo sol e arejada pelo vento, o
contrário de tudo o que é mistério. Depois, porque é animada
sem ser histérica. É o tipo de lugar em que se pode curtir a vida
noturna com os vidros do carro abertos, sem medo de pivete, arrastão e
outros pesadelos de cidade grande.
Sombreada por pelo menos 700 000 coqueiros, um para
cada habitante, Maceió ergue-se entre o mar verde-claro das sete praias e
o verde-escuro de duas lagoas, Mundaú e Manguaba. Tanta água assim
ocorre porque a cidade é uma restinga - numa definição de
dicionário, uma estreita faixa de terra entre lagoas e o mar.
Considerando sua geografia, não é de estranhar
que a cidade tenha desenvolvido uma vocação marítima. Maceió cresceu
em torno do Porto de Jaraguá, que no início não passava de um
entreposto para a exportação de açúcar. O porto jeitoso foi se
desenvolvendo junto com a cultura do açúcar, com tal vigor que, em
meados do século 19, a cidade em torno dele desbancou a então capital,
Alagoas do Sul, uma vila sem porto algum que hoje se chama Marechal
Deodoro.
À esquerda do porto, fica o bem-bom de Maceió - as
praias mais lindas, os bares mais bem freqüentados, as lojas mais
chiques, os prédios mais modernos. Como se não bastasse, ainda estão
desse lado as famosas piscinas naturais de Pajuçara e a badalada Ponta
Verde, com seu farol listrado de vermelho e branco plantado na água verde
e brilhante.
O outro lado é mais pobre e mais pitoresco.
Primeiro vem a Praia da Avenida, que fazia sucesso há 50 anos; depois, a
do Sobral, desfigurada pelos dutos de uma indústria química que lá se
instalou nos anos 70. Para equilibrar as coisas, é ali também que
fica a Lagoa de Mundaú, imenso espelho onde o sol se põe vermelho, e o
bairro das rendeiras, onde mulheres simples fazem mágicas com uma agulha
na mão. Para os nativos de Maceió, o trajeto de um lado da cidade para o
outro pode ser um projeto de vida - ou uma descida aos infernos, se for
feita no sentido errado. Para você, visitante, trata-se só de uma
lição de Brasil.
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